séries Tapumes I
TEXTOS

Construção e Descrição
Aquarelas das series: "Tapumes I" e "Intererências Verticais"
Jornal da Tarde 07/10/1980   - Sheila Leirner

Flavio Bassani é um artista jovem, ainda com diminuta audiência, que acaba de receber – merecidamente – um dos prêmios de aquisição no 1º Salão Paulista de Artes Plásticas e Visuais. A mesma série de aquarelas, que registra “fragmentos do cotidiano urbano, placas, postes e tapumes”, e que lhe valeu o prêmio com apenas três trabalhos, está na galeria Paulo Figueiredo, formando uma individual digna de nota.
São trinta desenhos pequenos que reproduzem fielmente os enquadramentos de uma objetiva imaginária. Isto não é novidade desde que os hiper-realistas esfumaçaram os limites que separam a fotografia da pintura. Entretanto, há nestas aquarelas uma qualidade específica que ultrapassa o estilo e que revela o verdadeiro artista.
Bassani utiliza simultaneamente dois códigos diferentes. Em um, faz o simulacro pintado da fotografia; no outro, usa a aquarela para oferecer a ilusão espacial de um “trompe d’oeil”. Não se sabe ali, contudo, o que prevalece. Há um deslocamento constante do relevo para a superfície e vice-versa; e da escolha do objeto como forma de construção para a escolha do objeto como forma de descrição. Dois códigos suficientemente diferentes para chocar o olho e provocar uma eficiente discussão sobre o próprio desenho.

A memória dos muros e tapumes da cidade
Aquarelas e acrílicos da série “Tapumes II”
Folha de São Paulo 02/10/1984   Radha Abramo

Flavio Bassani faz a tentativa de resgatar a memória virtualmente perdida dos muros da cidade, reproduzindo-os em pintura acrílica
e aquarelas. Ele faz um bom trabalho artesanal, com excelente acabamento técnico. A paisagem urbana é assinalada pelos letreiros, pela publicidade, marcas e grafites dos muros, que acabam desapercebidos, por força da saturação visual. Convivemos com o que nos cerca com certo distanciamento, já que tudo, de maneira geral, passa a ser anônimo.
E esse anonimato, penso eu, seria determinado pela saturação visual. A paisagem urbana assumiria a forma de um corpo com suas particularidades e dependendo a definição de seus contornos dos níveis de percepção de cada um.
A operação de resgate da memória urbana concretizada nas obras de Bassani envolve certamente planos de reflexão bastante complexos. As coisas não são tão simples como parecem: a exposição de Bassani não acaba nos seus quadros. Cada peça faz uma intermediação entre a memória coletiva da paisagem urbana, o artista e o espectador. Quem procura entender a imagem expressa nos quadros não sai da exposição da mesma forma como nela entrou.
Nossa memória galopa, fazendo-nos lembrar de coisas que pensávamos perdidas. Todas as formas, objetos, detalhes, cores, tapumes, pregos, marcas, assinaturas, que existem na paisagem exterior, uma vez percebidos, associam-se aos seus pares, para serem guardados na memória, que seleciona, que tem seus departamentos, os quais abrigam tapumes, outros os pregos, outro ainda os grafites, outros as assinaturas etc. Nesse processo, o que é personalizado deixa de
sê-lo, passando para o anonimato. Torna-se imagem significante de outros pregos, tapumes, rachaduras, desenhos etc.
Essa abordagem, embora simplista, poderá ilustrar essa memória coletiva que temos a nosso serviço. Quando Bassani pinta um quadro e nele incorpora as imagens significantes dos pregos, ele resgata imagens selecionadas. Esta operação se daria em muitos níveis. Um deles se centraria na catarse, e outro no exorcismo. No primeiro, o artista faria uma busca sensível e dolorosa nos patamares de sua memória, e no outro ele se vingaria do virtual esquecimento pintando as imagens recuperadas nos seus quadros. Trata-se de um ritual cuja performance implica sofrimento e liberação emocional desmedidos e no qual as imagens resgatadas só podem existir e emergir novamente se enquadradas em formas aparentemente geometrizadas. A geometria teria o poder de conter
a emoção e a auto violação catártica.
Bassani pinta um detalhe dos tapumes ou dos desenhos murais, fazendo um corte metonímico (parte da imagem da idéia do todo) correspondente à imagem significante do tapume etc.
Agora, como todas as imagens fazem parte da memória coletiva, as que Bassani pinta são também referentes à memória de cada espectador dos quadros. Por essa simples mas complexa razão, as obras de Bassani passam a ser figuras representativas da paisagem urbana. Nesta altura da reflexão, os quadros também são anônimos, podendo ser considerados como fatias emolduradas dos próprios tapumes arrancados dos muros da cidade. Muita gente pensará que Bassani simplesmente cortou um pedaço dos desenhos dos tapumes da rua, pendurando-os
na galeria. E se o espectador adquirir um quadro, a seu modo estará também resgatando a própria memória, levando-a para casa como obra de arte.
Está completo o círculo: o artista recupera a imagem e a sociedade passa a vê-lo como objeto presente, e como se nunca o tivesse esquecido.

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